II · Princípios

Posicionamento.

Acolhimento empático, diagnóstico colaborativo e personalização do tratamento — o cliente como sujeito ativo, não como receptor passivo.

No meu atendimento busco sempre acolher de modo empático as queixas e os objetivos do cliente, visando maximizar a qualidade de vida.

Acredito que as pessoas são mais do que seus diagnósticos, e mesmo um bom diagnóstico não pode ser feito sem olhar para a pessoa e seu contexto como um todo. Sintoma tem história e origem, e busco sempre entender a linha de tempo de quem está na minha frente: de onde os sintomas e comportamentos que causam prejuízo vieram, de que forma foram instalados, quais situações e ambientes os mantêm, e de que forma, ao detectá-los, podemos revertê-los ou estabilizar o quadro. Por isso minhas consultas não têm pressa e costumam ser longas — entender a pessoa, o diagnóstico, e decidir o tratamento envolvendo o cliente na decisão terapêutica requer tempo adequado.

O diagnóstico, quando chega, é elaborado em conjunto com o cliente — explico o raciocínio passo a passo, separo o que ainda é hipótese do que já é conclusão, e o engajo a entender os próprios sintomas. Um diagnóstico só faz sentido se também fizer sentido para a pessoa que o recebe.

Após estabelecido o diagnóstico, o tratamento é feito igualmente de forma colaborativa, sendo todas as opções terapêuticas discutidas não só de acordo com o perfil de eficácia para o transtorno, mas também sopesando o risco de efeitos colaterais e as preferências do cliente. Uma medicação com eficácia alta, mas cujos efeitos colaterais gerem mais prejuízos do que o benefício do tratamento, não é necessariamente uma boa medicação em termos de qualidade de vida e adesão ao tratamento.

Decisão compartilhada

A decisão sobre o tratamento é compartilhada — o contrário disso é o paternalismo, o modelo em que o médico, de forma unilateral, chega ao diagnóstico e decide pelo cliente a conduta que julga melhor. Acredito que o cliente deve estar ciente do que se passa com ele e ter todas as informações pertinentes para decidir seu tratamento, em conjunto com o médico. Esta decisão leva em conta não só a eficácia, mas também a tolerabilidade, o custo-benefício e os objetivos do cliente, buscando personalizar ao máximo o atendimento para a necessidade de cada indivíduo.

Creio firmemente que empoderar o cliente com o máximo de informações possível ajuda a entender o que está acontecendo, a confiar no tratamento e a sofrer menos com as dúvidas — ansiedade também se trata com explicação.

Informação como parte do tratamento

Levo o item anterior a sério o bastante para escrever sobre ele. Mantenho um acervo de artigos sobre diagnósticos, medicações e terapias — escritos e curados para quem eu atendo — que os clientes recebem conforme o momento do próprio tratamento: ao receber um diagnóstico, ao iniciar uma medicação, ao considerar uma terapia. Ninguém deveria sair de uma consulta com um nome novo na cabeça e o Google como única fonte, ou passar anos em acompanhamento sem receber um diagnóstico ou explicação sobre o seu tratamento.

Contra a medicalização excessiva

Embora muitos transtornos necessitem de uso de medicação, inclusive de forma contínua, busco sempre explorar opções de tratamento — como terapias — que possam ser alternativas para evitar o uso de medicações ou que ajudem a reduzir a dose ou o tempo de utilização da medicação. Intervenções psicoterapêuticas, sociais, de mudança de estilo de vida, e outras, surgem como tratamentos alternativos e/ou complementares.

Contra preconceitos

Acredito que o atendimento psiquiátrico deva ser livre de juízos de valor, de preceitos morais ou religiosos, e principalmente de preconceitos — motivo pelo qual me posiciono abertamente contra o racismo, a homofobia, a transfobia, o capacitismo, o preconceito de gênero/sexismo, e todas as demais formas de preconceito.

Em defesa da ciência

Acredito que a ciência deva ser respeitada, e o negacionismo combatido, e que a vida e a saúde mental devem ser sempre prioridades. Por este motivo, sou a favor das vacinas e de todas as demais intervenções que possuam base científica sólida.

Via de mão dupla

Em suma, acredito que a consulta psiquiátrica deve ser uma via de mão dupla, baseada no acolhimento das queixas, no respeito aos objetivos do cliente, e na construção colaborativa do diagnóstico e da terapêutica, da forma mais personalizada e empática possível.