IV · EMDR

O que é a terapia EMDR.

Terapia de dessensibilização e reprocessamento por movimentos oculares (EMDR, na sigla em inglês) — psicoterapia recomendada por diretrizes internacionais para o tratamento do trauma, baseada em estimulação bilateral para reprocessar memórias traumáticas.

Desenvolvida pela psicóloga americana Francine Shapiro a partir do fim dos anos 1980, a terapia parte de uma observação que virou um programa de pesquisa: memórias traumáticas não são arquivos inertes do passado. Quando uma experiência é intensa demais para ser digerida no momento em que acontece, ela fica armazenada de forma disfuncional — com as emoções, as sensações físicas e as crenças negativas daquela época ainda vivas — e passa a ser disparada pelo presente: um gatilho de hoje acorda a emoção de anos atrás, com a força de anos atrás. É o que o modelo do EMDR chama de processamento adaptativo de informação: o cérebro tem um sistema natural para digerir experiências e integrá-las ao resto da memória, e o trauma é o que acontece quando esse sistema é sobrecarregado.

Na sessão, o cliente é instruído a evocar o conteúdo traumático enquanto o terapeuta conduz a estimulação bilateral (movimentos oculares, toques ou sons alternados). Esse pareamento — a memória ativada ao mesmo tempo em que a atenção é ocupada pelo estímulo — permite ao cérebro retomar a digestão interrompida: desfazer as redes neurais instaladas pelo trauma e construir outras, saudáveis, transformando uma experiência que era sintomática, geradora de crenças negativas e de sofrimento, em algo neutro — uma memória que se lembra sem reviver.

Sobre por que a estimulação bilateral ajuda, há mais de uma hipótese sob investigação séria. A de melhor sustentação experimental é a da memória de trabalho: evocar uma lembrança e acompanhar um estímulo em movimento ao mesmo tempo compete pelos mesmos recursos de atenção, e a memória evocada nessas condições perde vivacidade e carga emocional antes de ser rearquivada. Outra hipótese relaciona os movimentos bilaterais aos movimentos oculares do sono REM, a fase do sono em que memórias são consolidadas; uma terceira aponta a resposta de orientação, com ativação do sistema de calma fisiológica. O mecanismo exato segue em aberto — como, aliás, o de boa parte das psicoterapias e dos medicamentos psiquiátricos —, e é por isso que a recomendação do EMDR nas diretrizes internacionais não se apoia em teoria, e sim no que se pode medir: o desfecho clínico, em dezenas de ensaios controlados.

Indicações

O EMDR é usado para tratar uma variedade de condições. Inicialmente aplicado para transtorno de estresse pós-traumático, pode ser usado em transtornos depressivos, de ansiedade, de ansiedade de doença, em sintomas obsessivo-compulsivos, fobias específicas (medo de avião, de altura, de agulhas, de sangue, etc.), pânico, dor crônica, dentre outros.

É também indicado para a correção de crenças negativas. Pensamentos como "não sou bom o bastante", "não mereço ser amado", "estou em perigo", "tenho que ser perfeito/a", "não posso lidar com isso", "não sou capaz", "faço tudo errado", "há algo errado comigo", em geral são decorrentes de experiências negativas na infância ou no desenvolvimento, embora também possam ocorrer em ambientes escolares, acadêmicos, ocupacionais, dentre outros.

Terapias cérebro-corpo e abordagens bottom-up

Diferente do paradigma tradicional das terapias de fala, as abordagens cérebro-corpo incluem uma gama de psicoterapias que usam outros acessos ao cérebro, incluindo a terapia EMDR, o Brainspotting, o Neurofeedback, a Experiência Somática e a Psicoterapia Sensorimotora.

Um modelo didático clássico — hoje reconhecido pela neurociência como uma simplificação, mas ainda útil para explicar a lógica dessas terapias — divide o cérebro em três camadas, da superior à inferior:

  1. Neocórtex — a parte racional e lógica do cérebro;
  2. Sistema límbico — associado às memórias e às emoções;
  3. Tronco cerebral e estruturas profundas — controlam as funções mais primitivas e conectam o cérebro ao restante do corpo.

Abordagens top-down (de cima para baixo) começam engajando a parte lógica e racional do cérebro, que inclui a linguagem. Entretanto, no trauma, as disfunções muitas vezes estão no sistema límbico (emoções) e nas estruturas profundas (o corpo). Dessa forma, abordagens bottom-up (de baixo para cima) costumam funcionar melhor. Tratar estas camadas irracionais e emotivas do cérebro, cujas reações muitas vezes se dão de forma involuntária, com argumentos racionais, não costuma ser efetivo, pois o trauma desliga a camada racional e lógica do cérebro.

Você pode dizer que não há motivos para se sentir ansioso ou em perigo, entender que a ansiedade é injustificada naquele nível ou que não há perigo, mas ainda assim sentir-se ansioso ou em perigo. Entender e sentir são processos diferentes, e muitas vezes o entendimento não muda a emoção ou a sensação física desencadeada por memórias passadas frente a um gatilho presente.

Modelo de atendimento

A terapia EMDR é feita online, na sala de atendimento do Persona, com ferramenta própria de estimulação bilateral sincronizada. As sessões duram 50 minutos, e é possível agendar sessões duplas para quem desejar um trabalho mais longo.

A frequência usual é de uma sessão por semana. A duração do tratamento depende das questões a serem trabalhadas e da velocidade com que cada pessoa reprocessa os conteúdos abordados.

Formação

Formação em EMDR pela Trauma Clinic, com reconhecimento pelo EMDR Institute e pela AIBAPT (Associação Ibero-Americana de Psicotrauma).

Evidência científica

O EMDR é recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para o tratamento do transtorno de estresse pós-traumático desde 2013, e figura entre os tratamentos de escolha para trauma também nas diretrizes das principais sociedades internacionais da área. No Brasil, de acordo com a Resolução do CFP nº 13, de 15 de junho de 2022, cumpre os requisitos de uma abordagem psicoterapêutica.

São milhares de publicações indexadas no PubMed, incluindo metanálises — estudos que agregam os resultados de vários ensaios clínicos — demonstrando eficácia no transtorno de estresse pós-traumático, onde a evidência é mais forte, com pesquisa crescente em depressão, ansiedade e outras condições.

Material adicional

Artigos científicos

Livros

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